Memórias de uma viagem

Benguela é a província angolana onde há mais miscigenação. É o Brasil de Angola. Há pretos, mulatos de vários tons e brancos. O chefe de protocolo do governador - o senhor Toni - é um branco louro, de olhos azuis. Quando pergunto ao governador se há aqui racismo ele responde taxativamente que não: «Não há nenhum angolano que não tenha um amigo de infância, de quintal, branco - e a nossa cultura diz que aquele que cresce connosco no quintal é irmão.» Passeio à noite pelas ruas. Observa-se uma calma mortal e a mesma sensação de abandono que se vive em Luanda, embora aí haja vida e aqui, depois de escurecer, a cidade pareça um túmulo. Também em Benguela não se construiu mais nada desde a independência. Os estabelecimentos que continuam a funcionar, provavelmente de portugueses, parecem ter parado no tempo: os artigos são «démodés», estão desactualizados. Dir-se-ia que a moda, os gostos, também ficaram suspensos.

A 30 quilómetros de Benguela está o Lobito. Faz confusão como duas cidades importantes podem estar tão próximas - e, por isso, a rivalidade entre elas sempre foi enorme.

Enquanto Benguela fica numa enseada, o Lobito estende-se por uma língua de areia que quase fecha uma baía longa e estreita. Aqui existiam no dia 25 de Abril as vivendas dos portugueses ricos, que fazem lembrar as casas elegantes do Bairro do Restelo mas que foram ocupadas e estão hoje em grande parte degradadas. Os colonos faziam nesta cidade, durante todo o ano, a vida que na metrópole se fazia nas casas de férias durante o Verão. «Almoçávamos todos os dias na praia. O nosso pai vinha almoçar a casa, os empregados traziam as mesas para a areia, punham as toalhas, os pratos e os talheres e comíamos ali. Até o carrinho das bebidas vinha para a areia. Nunca mais passei tempos tão bons», diz um neto do antigo deputado André Navarro, que viveu no Lobito até à independência.

No extremo desta língua de areia, uma presença portuguesa impõe-se a todas as outras: a Praça do Império, com um cais das colunas idêntico ao do Terreiro do Paço. Todos os edifícios públicos que aqui se situam são herança da administração portuguesa: as Finanças, o Tribunal, a luxuosa sede da Associação Comercial - onde agora está instalada a sede local do MPLA. Aliás, curiosamente, nas cidades que visitei a sede do MPLA instalou-se nos antigos edifícios das associações comerciais.

 

Texto de JOSÉ ANTÓNIO SARAIVA

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